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domingo, 26 de junho de 2011

Pro Se



A imponencia é mais importante que a verdade (verdade?)
A justiça não pertence aos fracos, sou fraco...
A derrota por vezes melhor professor
A lei é risível
Dispo a túnica da verdade perante um tribunal
Alego culpa, me uni carnalmente na força motriz de todos meus elétrons
Aos criminosos, aos covardes
Irremediável-mente                        
Aos imorais, aos fora da lei, aos injustiçados: ergo minha taça de cicuta e faço um brinde
Em copo descartável
Com as putas e os bêbados, meus irmãos
Buscar não me interessa mais, importa viver
Dou por finda minha herança de athenas
A lavagem dos porcos enriqueceu-me a carne
A falsidade chicoteia minhas costas, mas não ouve os gemidos
Sou impune, me unirei aos bandidos e com raposas caçarei lealdade
Não aqui, não aqui...
Salto como um menino e suas bolas de gude ante ao desconhecido
A ignorância é meu reinado, sou levado, vou sorrindo
Despreocupado me desfaço
E me assumo
Vagabundo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

four of cups







Tudo o que você mais quer é o que menos terá 
ao menos que despretensiosamente tente obter
Longe dos olhos e ouvidos e bocas famintas
Arruaceiros de sonhos alheios que neste plano chamamos de semelhantes
Aprende a dominar seu desejo, aprende a oculta-lo das finas máscaras da hipocrisia
Usa a intolerância a seu favor
Até o limite do ego
Alarga as estacas da tenda sem proclamar aos quatro ventos, no entanto
Os bons ventos que levam sua alegria são os mesmos que trazem maus augúrios
Não te fies na mão estendida se desconheces o braço que a sustém
E jamais se esqueça que  você e somente você está realmente interessado e comprometido com o que seu coração sonhou

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quod


Teste é de testa
Teia, vereda
Musgo de sangre
Manos hermanos
Quem brinca de recriar
É um astro que a si persegue
Rastro-astro si em lá bemol
Mary had a little lamblevava uma opala pela pele pero pelo perro emperrou
pierrot
Error...

sábado, 4 de junho de 2011

Carta do Cacique Mutua







O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora.

Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado.
Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo.
Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.
Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio.
O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.
Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.
Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes.
Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.
Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue.
Hoje pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.
Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós.
Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.
É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.
Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.
O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.
Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.
Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta.
O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu.
Com um grito agudo perguntou:
Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu?
Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens.
O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.
O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.
A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.
Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.
O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo.
Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor.
As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra.
Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.
Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.
Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.
O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.
O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.
Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!
Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer.

Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!
Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer.

Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.

Cacique Mutua"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Faze em mim a verdadeira força do jaguar...


 "EU ACHO QUE TIVE UM SONHO, MAS NÃO ME LEMBRO EXATAMENTE DA MÚSICA QUE TOCAVA,
TALVEZ POR ISTO TENHA ACORDADO ESQUISITO TENTANDO OLHAR PARA ALÉM DO ESPELHO,
PARA MUITO ALÉM DOS LADRILHOS DO BANHEIRO, COM O OLHAR VAZADO, O DOS SANTOS, DOS SOSSEGADOS,
 DAQUELES QUE DERAM POR FINDA A BUSCA. O OLHAR DE TIA  NEIVA. ACHO QUE FOI ISSO- SONHEI COM ELA,
NÃO EXATAMENTE COM ELA, MAS EM ALGUM LUGAR DO DELÍRIO ELA PASSAVA ARRASTANDO O MANTO,
COM AQUELA BELEZA DE RAINHA. TIA NEIVA ERA BELA, EU ACHAVA. CERTA VEZ, EU ESTAVA FILMANDO EM BRASÍLIA
E FOMOS TODOS AO VALE DO AMANHECER. EU, LUCÉLIA SANTOS, LAURINHO CORONA, DANIEL DANTAS, LOUISE CARDOSO, 
CHICO DIAZ, UMA TURMA. HAVIA MUITA GENTE POR LÁ, INICIADOS QUE USAVAM ROUPAS COLORIDAS, VISITANTES,
GENTE DE TODA E POR TODA A PARTE. FICAMOS ALI, FILMAMOS ALI, ASSISTIMOS PARTE DO CULTO E EU TRAGO VIVA
A IMAGEM DOS SACERDOTES QUE VIBRAVAM À VOLTA DE UM LAGO EM FORMA DE ESTRELA. A IMAGEM NUNCA SE APAGOU
DE MINHA MENTE-ERA BONITO!- HAVIA UMA BRISA QUE ENCRESPAVA AS ÀGUAS DA ESTRELA E ELA REFLETIA AS CORES,
 MISTURANDO TUDO NUM EMARANHADO SEM FIM. O LAGO ASSIM, ERA LILÁS, ROSA, AMARELO E DOURADO. NA VERDADE
DEPOIS DE DE MINUTOS DE MIRAÇÃO NÃO ERA MAIS UM LAGO- ERA A AURORA BOREAL QUE MERGULHAVA NAS ÀGUAS DO CERRADO.
NÓS FICAMOS SENTADOS NUMA PEQUENA COLINA NAQUELA TARDE, RESPEITOSAMENTE ASSISTINDO AO CULTO E À EMOÇÃO,
ERA COMO O VENTO NOS CABELOS,  UMA CARÍCIA, UM SOPRO DE VIDA, QUASE UM ADEUS. OS INICIADOS PEDIAM A FORÇA DO JAGUAR.
MAIS DE DEZ ANOS DEPOIS EU ME FLAGRO TAMBÉM PEDINDO A FORÇA DO JAGUAR E ME PERGUNTO, NESTA SOLITÁRIA MANHÃ,
SE O JAGUAR SENTE O QUE EU ESTOU SENTINDO, SE ELE É IMUNE A ESSES TOLOS SENTIMENTOS HUMANOS. AH LEITOR! SE ISSO
PUDESSE ACALMAR O FOGO DAS ENTRANHAS, QUE VIESSE ENTÃO, ESTA FORÇA QUE INUNDASSE MEU PEITO DE SERENIDADE,
QUE APAGASSE TODO E QUALQUER VESTÍGIO DE ANGÚSTIA E DE SAUDADE. TIA NEIVA NOS RECEBEU. ELA TINHA, SE NÃO ME ENGANO,
UM PROBLEMA GRAVE DE PULMÃO- FALAVA COM DIFICULDADE- UM FIO DE VOZ- MAS O OLHAR INESQUECÍVEL. TIA NEIVA OLHAVA ALÉM,
MUITO ALÉM. E SEU ROSTO ERA UMA MÁSCARA IMPENETRÁVEL. APÓS ALGUNS MINUTOS DE CONVERSA, EU FUI PERCEBENDO QUE,
POR TRÁS DA FORTALEZA HAVIA OUTRA FACE. A FACE DA TRISTEZA. E, ENTÃO, ENTENDI O PORQUE TIA NEIVA VIA. NÃO QUERIA VER, MAS VIA E SABIA" 

Miguel Falabella

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Nome



Aprendi a acalmar meus ânimos quando o abraço cola de um jeito que nem chave abre
Você me disse: deixa eu te tocar, mas a comunicação demasiado falha não se fez entender e eu tive que ir embora pra acordar sem saber se o que era foi mesmo ou não e o quê
E mais um bocado de e que não sei mais nomear, umas cabritinhas pulando cerca que a gente perde a conta
É sempre assim quando te sonho, o abraço acaba a saudade fica e o sono some
Já não importa o que é e se acredita e por que
Nada importa.
Foi só um sonho.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Se te queres matar - Fernando Pessoa




Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Fernando Pessoa